domingo, 25 de outubro de 2026

 

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As Características da Geração Absalão

O culto da imagem não é uma experiência sociológica recente, pois a vaidade de ser considerado bonito, belo e extraordinário sempre rondou o coração do ser humano. Essa realidade ganha um rosto histórico nas páginas de 2 Samuel 14.25, que descreve um jovem formoso, forte e amplamente admirado pela sociedade israelita ao afirmar que “não havia, porém, em todo o Israel homem tão celebrado por sua beleza como Absalão; da planta do pé ao alto da cabeça, não havia nele defeito algum”.

Considerando o fato de que Absalão era filho do rei Davi, a trajetória desse jovem revela muito do que acontece com a juventude e a sociedade de nossos dias. Para compreender essas semelhanças e discernir os paralelos entre aquela época e os dias atuais, a primeira coisa a ser feita é identificar as características fundamentais dessa "geração Absalão".

A primeira grande marca dessa geração é que as pessoas consideram a imagem muito mais importante do que a essência das coisas, agindo como se a embalagem fosse mais valiosa do que o próprio produto. Nos dias de hoje, a beleza física tornou-se a principal forma de validação social, fazendo com que a aparência exterior se sobreponha totalmente ao caráter.

Entrementes, o perigo desse estilo de vida fica evidente quando contrastamos a perfeição estética de Absalão com o seu interior corrompido, manifestado em 2 Samuel 13.28-29, quando ele deu ordens expressas aos seus servos dizendo: “Tomai sentido; quando o coração de Amnom estiver alegre do vinho, e eu vos disser: Feri a Amnom, então o matareis; não temais: porque porventura não sou eu quem vo-lo ordenenado? Esforçai-vos, e sede valentes. E os moços de Absalão fizeram a Amnom como Absalão lhes havia ordenado. Então, todos os filhos do rei se levantaram, cada um montou seu mulo, e fugiram”.

O que percebemos é que essa contradição expõe que, na geração de Absalão, a aparência é a primeira — e muitas vezes a única — coisa a ser observada, levando o mundo a julgar estritamente segundo o que vê por fora. Essa postura nos remete diretamente à dura denúncia de Jesus em Mateus 23.27-28 contra os religiosos de sua época: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”.

Destarte, vivemos sob o impacto dessa busca incessante pelo exterior e, assim, na nossa pós-modernidade, as pessoas passaram a construir uma imagem fictícia, um "eu virtual", um personagem ou um mito que, com o tempo, passa a possuir o próprio indivíduo e a conduzir cegamente os seus atos.

Esse fenômeno assemelha-se ao relato de Atos 8.9-13 sobre Simão, o mago, que “praticava a mágica, iludindo o povo de Samaria, insinuando ser ele grande vulto; ao qual todos davam ouvidos, do menor ao maior... Aderiam a ele porque havia muito os iludira”, mostrando o poder que a ilusão da imagem exerce sobre as mentes.

Essa profunda inversão de valores abre caminho para a segunda característica crucial desse grupo.

Esta segunda característica apresenta uma geração que relativiza completamente os valores tradicionais. Neste sentido, Absalão, apesar de ser internamente um homem perverso, possuía um "bom papo" e uma excelente oratória que escondiam com sucesso o instinto assassino que carregava no peito.

Percebemos claramente este traço do seu caráter no texto de 2 Samuel 15.2-6, onde ele manipula diariamente seus concidadãos, senão vejamos: “Levantando-se pela manhã, parava à entrada da porta; e a todo homem que tinha alguma demanda para vir ao rei a juízo, o chamava Absalão a si... e lhe dizia: Olha, a tua causa é boa e reta, porém não tens quem te ouça da parte do rei... Ah! Quem me dera ser juiz na terra... Também, quando alguém se chegava para inclinar-se diante dele, ele estendia a mão, pegava-o e o beijava. Desta maneira fazia Absalão a todo o Israel... e, assim, ele furtava o coração dos homens de Israel”.

Desse modo, a geração de Absalão, movida por esse mesmo espírito sedutor, não teme verdadeiramente a Deus, mas aprendeu a usar a religião — seja ela herdada dos pais ou extraída do contexto social dominante — como uma mera ferramenta política para alcançar os seus próprios objetivos egoístas.

O próprio Absalão utilizou de forma calculada a crença de seu pai para abrir caminho até o trono, conforme registrado em 2 Samuel 15.7-9: “Ao cabo de quatro anos, disse Absalão ao rei: Deixa-me ir a Hebrom cumprir o voto que fiz ao Senhor. Porque, morando em Gesur, na Síria, fez o teu servo um voto, dizendo: Se o Senhor me fizer tornar a Jerusalém, prestarei culto ao Senhor. Então, lhe disse o rei: Vai-te em paz. Levantou-se, pois, e foi para Hebrom”.

Essa geração, sendo completamente apaixonada pela própria projeção, revela um perfil megalomaníaco e narcisista que, mesmo sem possuir estrutura moral, deseja ardentemente governar e liderar uma nação.

Dessa forma, para consolidar essa ambição baseada no orgulho, Absalão não hesitou em contratar e manipular pessoas simplórias para apoiarem o seu projeto de poder, agindo exatamente como descreve 2 Samuel 15.10-11: “Enviou Absalão emissários secretos por todas as tribos de Israel, dizendo: Quando ouvirdes o som das trombetas, direis: Absalão é rei em Hebrom! De Jerusalém foram com Absalão duzentos homens convidados, porém iam na sua simplicidade, porque nada sabiam daquele negócio”.

Por fim, precisamos acompanhar o comportamento desta geração com uma atenção a mais, sobretudo, para não nos inserirmos nela, como também necessitamos buscar competências e capacidades críticas para reagir a essa manipulação sutil que engana as mentes incautas e busca estabelecer suas marcas destrutivas na sociedade.

sábado, 24 de outubro de 2026

 

Efésios 4.1-6: A Unidade na Diversidade da Igreja – Daniel Simoncelos

COMO PENSAR EM UNIDADE ONDE HÁ TANTA DIVERSIDADE?

 

Texto: Efésios 4:4-6 (ARA)

"Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos".

 

Introdução: Vivemos uma fase da história em que temos muita informação acerca da tolerância, do respeito às diferenças e do acolhimento das pessoas com limitações físicas, mentais e cognitivas. E isto é muito bom. É um avanço civilizatório e, sem dúvida, um reflexo da graça comum de Deus.

Entretanto, precisamos reconhecer uma contradição: a sociedade e a igreja, apesar de receberem esta educação inclusiva, ainda lidam muito mal com a diversidade e a pluralidade da raça humana. Falamos de inclusão, mas praticamos a exclusão. Pregamos tolerância, mas temos dificuldade de conviver com quem pensa, age e crê diferente de nós.

Por isso, vamos nesta ocasião pensar um pouco sobre diversidade e unidade na perspectiva bíblica. A pergunta que nos guia é: como pensar em unidade religiosa onde há tanta diversidade cultural? O apóstolo Paulo, escrevendo aos Efésios, nos oferece boas respostas.

1.            Entendendo que a igreja é plural como comunidade e una como corpo de Cristo

A primeira verdade que Efésios nos ensina é que a unidade da igreja não anula sua pluralidade. Paulo começa afirmando que "há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação" (Ef 4:4). Os membros da comunidade são diversos, mas a igreja é uma só (a igreja de Jesus Cristo).

A diversidade não é um defeito a ser corrigido, é um projeto divino. Quando olhamos para a criação, vemos que a pluralidade é uma realidade da própria natureza. Deus a criou para ser diversificada. O relato de Gênesis nos diz que Deus ordenou: "Produza a terra relva, ervas que deem semente e árvores frutíferas que deem fruto segundo a sua espécie", e o texto conclui que "a terra, pois, produziu relva, ervas que davam semente segundo a sua espécie e árvores que davam fruto, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom" (Gn 1:11,12).

Deus não criou uma monocultura. Ele criou segundo a espécie, com variedade, cor e sabor diferentes. E viu que isso era bom. Se na natureza a diversidade é bela, na igreja ela precisa ser respeitada e incentivada, pois a igreja deve ser um lugar de tolerância e respeito às diferenças.

O Concílio de Jerusalém, em Atos 15, é o melhor exemplo disso. Alguns indivíduos que desceram da Judeia ensinavam aos irmãos: "Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos", e houve da parte de Paulo e Barnabé "contenda e não pequena discussão com eles" (At 15:1-2).

Nesta perspectiva, a questão era: para ser cristão, precisa deixar de ser gentio e virar judeu? A resposta apostólica foi libertadora: "Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais: que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas" (At 15:28-29). Portanto, a igreja apostólica decidiu preservar a diversidade cultural, étnica e social, exigindo apenas o essencial da fé.

 

2.        Compreendendo que Deus trabalha com diversidade para produzir unidade

A segunda resposta é ainda mais profunda: Deus não trabalha apesar da diversidade, Ele trabalha com a diversidade para produzir unidade. Precisamos entender que a unidade bíblica não é uniforme, mas multiforme. Ela é como o curso de um rio. Um rio não é uma linha reta traçada com régua. Ele pode nascer nos montes, mas vai descer pelos vales - pode possuir linhas retas, mas pode também meandrar. E, no entanto, continua sendo um só rio.

Este horizonte é o proposto pelo apóstolo quando afirma que há "um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos" (Ef 4. 6). Ele é sobre todos, mas age por meio de todos e habita em todos.

Neste sentido, a unidade é construída pelo Pai, a partir da nossa pluralidade. Isso fica claro quando Pedro nos lembra que a diversidade humana é contemplada por uma graça que não é uniforme, mas multiforme. Ele nos exorta: "Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus" (1Pe 4:10).

Portanto, a unidade que é construída com a anulação das diversidades é hipócrita e tem pouca duração. Paulo explica isso de forma magistral em 1 Coríntios 12. Ele diz: "Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito" (1Co 12.13).

Em seguida, ele argumenta: "Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos. Se disser o pé: Porque não sou mão, não sou do corpo; nem por isso deixa de ser do corpo" (1Co 12.14-15). E continua: "Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde, o olfato? Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve. Se todos, porém, fossem um só membro, onde estaria o corpo?" (1Co 12.17-19).

Imaginemos uma situação fictícia, onde uma comunidade só planta arroz. Se todos plantam só arroz, na hora da colheita só haverá arroz. Não haverá feijão, não haverá milho, não haverá legumes. É uma comunidade pobre, embora uniforme. Uma comunidade rica é aquela que planta de tudo, porque cada um traz sua semente, seu dom, sua cultura.

Conclusão:

Portanto, como pensar em unidade onde há tanta diversidade? Entendendo que Deus nos fez plurais como comunidade, mas unos como corpo. E compreendendo que Ele usa justamente essa diversidade para produzir uma unidade verdadeira. A unidade que Deus quer não é a uniformidade de um quartel, onde todos se vestem igual e pensam igual. É a unidade de um corpo, onde o olho é diferente do ouvido, mas ambos precisam um do outro para que o corpo veja e ouça.


 

sábado, 31 de janeiro de 2026

 

 

Conheça os benefícios da goiabeira e aprenda a cultivar essa árvore   

Lições de uma goiabeira esquecida e de um gato sem asas

José Roberto Limas da Silva[1]

Esta é uma pequena história que começa de forma inesperada, passeia por lugares estranhos, mas que nos oferece, ao fim, uma reflexão necessária. Estava eu olhando, aleatoriamente, através da janela da academia de ginástica, quando vi, por cima do muro, um gato sem asas, passeando debaixo de uma goiabeira desprezada. Eu sei, estas são impressões nada casuais para uma sexta-feira banhada por chuvas de verão.  Mas espere, esta é, apenas, uma parte da história. O caso da goiabeira esquecida merece ser contado, pois a pobre estava apinhada de goiabas na sua copa, mas ninguém aparecia para colher seus frutos. Nem mesmo o “Chico Bento” apareceu para desfrutar de suas delícias. Assim, havia goiabas maduras,  aos montes, nos seus galhos e frutos apodrecendo ao seu pé. Bom, você deve estar se perguntando: onde ele quer chegar? Espere um pouco, ainda não lhe apresentei o gato sem asas, que era igual aos outros gatos. O felino, de fato, não voava. Sim, não era alado, mas saltava sobre borboletas que voavam ao seu redor. E, com alguma sorte, vezes por outra, capturava uma ali e outra acolá. Agora sim, vou falar o que pretendo com esta história. Goiabeiras não precisam de consumidores para darem seus frutos. Elas precisam, apenas, responder a sua vocação, ou seja, dar goiabas na estação própria. Igualmente, gatos não precisam voar, basta saltarem com eficácia. Esta história pode nos inspirar a uma vida frutífera e abençoadora, mesmo que as pessoas não reconheçam a qualidade e a validade de nossos frutos. Igualmente, à semelhança do gato sem asas, podemos alcançar nossos objetivos nos valendo das competências que já temos, em vez de vivermos iludindo nosso coração com aquilo que não podemos ter. Afinal, cada um de nós recebeu um dom e uma vocação da parte de Deus que é suficiente para nossa felicidade (I Co. 7. 24).

 



[1] Texto comemorativo aos meus 60 anos de vida. Agradeço a Deus por ter mantido-me vivo e frutífero para sua Glória.