
Por que Jesus escolheu a periferia?
“¹² Ouvindo, porém, Jesus que João fora preso, retirou-se para a Galileia; ¹³ e, deixando Nazaré, foi morar em Cafarnaum, situada à beira-mar, nos confins de Zebulom e Naftali; ¹⁴ para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: ¹⁵ Terra de Zebulom, terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios! (Mateus 4. 12- 15).
Introdução:
Jesus viveu 33 anos nesta terra, sendo que a maioria desse tempo ele passou em Nazaré, onde viveu sua infância, adolescência e juventude. Sua ida a Jerusalém ocorria só mesmo nas festas tradicionais e em alguns momentos específicos do seu ministério. Fora isso, apareceu lá somente para ser crucificado e morto. Jerusalém definitivamente não era o lugar preferido do cidadão Jesus.
Esta é uma reflexão importante para nossos dias, acerca do fato de que Jesus cresceu, viveu e desenvolveu efetivamente seu ministério na periferia da vida judaica. A pergunta que se impõe aqui é: por que Jesus escolheu a periferia? Esta pergunta é respondida na obra de José Roberto Lima da Silva, cujo título é “Qual é o lugar da igreja evangélica na sociedade brasileira[1]?”. Hoje, nós vamos responder a esta pergunta aqui, neste texto: por que Jesus escolheu a periferia?
1- Por que ele preferiu viver fora das esferas do poder político e religioso
O primeiro ponto fundamental para entender o ministério de Cristo é compreender que Jesus preferiu viver fora da agitação política e religiosa de Jerusalém. Vemos isso claramente logo após o seu batismo, conforme narra Mateus 3:13: “Então veio Jesus da Galileia ter com João, junto do Jordão, para ser batizado por ele.” Logo em seguida, sabendo que as pressões políticas haviam começado, segundo o relato de Mateus 4:12, vemos que “Jesus, porém, ouvindo que João estava preso, voltou para a Galileia”. Sua reação diante da crise não foi buscar o centro do poder judaico, mas retornar à província.
Percebemos nessa escolha, o desejo de não se vincular às escolas rabínicas já consagradas ou às seitas dos fariseus e saduceus. Esse posicionamento se torna ainda mais evidente à medida que ele vai se distanciando geograficamente de Jerusalém, estabelecendo sua base em Nazaré — situada a cerca de 150 km de distância — e em Cafarnaum, cerca de 50 km adiante, habitando na Galileia das nações.
Nesse movimento em direção às margens da sociedade da época, sua identidade judaica vai sendo diluída à medida que ele se aproxima mais e mais dos gentios, que eram vistos pela elite como a verdadeira ralé social e religiosa.
Isso posto, sabemos que esse distanciamento da tradição profética da Judeia custou-lhe caro, mas temos convicção que foi sua clara opção. Assim, Jesus não tinha o respaldo da religião judaica oficial e isso fica nítido quando ele finalmente entra na capital e a cidade inteira se alvoroça, conforme registrado em Mateus 21.10 -11: “E, entrando ele em Jerusalém, toda a cidade se alvoroçou, dizendo: Quem é este? E a multidão dizia: Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia.” Entretanto, Ele é tratado com desprezo pelas autoridades religiosas, conforme João 7. 52: “És tu também da Galileia? Examina, e verás que da Galileia nenhum profeta surgiu.”
2- Porque ele escolheu estar perto das pessoas marginalizadas e periféricas
O segundo aspecto crucial de sua trajetória é que há uma evidente empatia de Jesus para com as pessoas marginalizadas pela sociedade israelita. Se olharmos para os fundamentos daquela cultura, a tradição patriarcal de Israel era composta historicamente por pessoas de vocação agropastoril, e não de pescadores. Mesmo assim, segundo o texto de Mateus 4. 18-19, ele escolhe trabalhadores comuns dessa classe esquecida: “E Jesus, andando junto ao mar da Galileia, viu a dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, porque eram pescadores; E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.”
Essa disposição de estar perto de pessoas de segunda e terceira categorias (na perspectiva sociocultural da Palestina) marcou sua trajetória ministerial. Jesus não se esquivou dos constrangimentos culturais e religiosos do seu tempo. Ele quebrou abertamente os preconceitos vigentes, conforme relata João 4:7-9, ao parar para conversar com uma estrangeira: “Veio uma mulher de Samaria tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. (...) Disse-lhe, pois, a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (porque os judeus não se comunicam com os samaritanos).”
Com essas atitudes, fica evidente que Jesus estava à procura daqueles que foram abandonados pelo sistema sociorreligioso, e ele confrontou este modelo de forma muito corajosa. Um dos exemplos mais marcantes ocorre quando ele avista um cobrador de impostos odiado pela sociedade, conforme lemos em Lucas 19. 5-7: “E quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa. E, apressando-se, desceu, e recebeu-o alegremente. E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador.”
Por fim, Cristo não permitiu que os códigos culturais inevitáveis se tornassem uma barreira para a aproximação dos diferentes. Mesmo diante de diálogos culturalmente duros, como mostra o encontro em Mateus 15:26-28, Jesus fez questão de exaltar e acolher a fé de quem estava do lado de fora: “Ele, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos. E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores. Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua filha ficou sã.”
[1] SILVA, José Roberto Limas da Silva. Qual é o lugar da igreja evangélica na sociedade brasileira: uma reflexão sobre o crescimento da igreja evangélica no Brasil. São Paulo: UICLAP, 2025.
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