
COMO PENSAR EM UNIDADE ONDE HÁ TANTA DIVERSIDADE?
Texto: Efésios 4:4-6 (ARA)
"Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos".
Introdução: Vivemos uma fase da história em que temos muita informação acerca da tolerância, do respeito às diferenças e do acolhimento das pessoas com limitações físicas, mentais e cognitivas. E isto é muito bom. É um avanço civilizatório e, sem dúvida, um reflexo da graça comum de Deus.
Entretanto, precisamos reconhecer uma contradição: a sociedade e a igreja, apesar de receberem esta educação inclusiva, ainda lidam muito mal com a diversidade e a pluralidade da raça humana. Falamos de inclusão, mas praticamos a exclusão. Pregamos tolerância, mas temos dificuldade de conviver com quem pensa, age e crê diferente de nós.
Por isso, vamos nesta ocasião pensar um pouco sobre diversidade e unidade na perspectiva bíblica. A pergunta que nos guia é: como pensar em unidade religiosa onde há tanta diversidade cultural? O apóstolo Paulo, escrevendo aos Efésios, nos oferece boas respostas.
1. Entendendo que a igreja é plural como comunidade e una como corpo de Cristo
A primeira verdade que Efésios nos ensina é que a unidade da igreja não anula sua pluralidade. Paulo começa afirmando que "há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação" (Ef 4:4). Os membros da comunidade são diversos, mas a igreja é uma só (a igreja de Jesus Cristo).
A diversidade não é um defeito a ser corrigido, é um projeto divino. Quando olhamos para a criação, vemos que a pluralidade é uma realidade da própria natureza. Deus a criou para ser diversificada. O relato de Gênesis nos diz que Deus ordenou: "Produza a terra relva, ervas que deem semente e árvores frutíferas que deem fruto segundo a sua espécie", e o texto conclui que "a terra, pois, produziu relva, ervas que davam semente segundo a sua espécie e árvores que davam fruto, conforme a sua espécie. E viu Deus que isso era bom" (Gn 1:11,12).
Deus não criou uma monocultura. Ele criou segundo a espécie, com variedade, cor e sabor diferentes. E viu que isso era bom. Se na natureza a diversidade é bela, na igreja ela precisa ser respeitada e incentivada, pois a igreja deve ser um lugar de tolerância e respeito às diferenças.
O Concílio de Jerusalém, em Atos 15, é o melhor exemplo disso. Alguns indivíduos que desceram da Judeia ensinavam aos irmãos: "Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos", e houve da parte de Paulo e Barnabé "contenda e não pequena discussão com eles" (At 15:1-2).
Nesta perspectiva, a questão era: para ser cristão, precisa deixar de ser gentio e virar judeu? A resposta apostólica foi libertadora: "Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais: que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas" (At 15:28-29). Portanto, a igreja apostólica decidiu preservar a diversidade cultural, étnica e social, exigindo apenas o essencial da fé.
2. Compreendendo que Deus trabalha com diversidade para produzir unidade
A segunda resposta é ainda mais profunda: Deus não trabalha apesar da diversidade, Ele trabalha com a diversidade para produzir unidade. Precisamos entender que a unidade bíblica não é uniforme, mas multiforme. Ela é como o curso de um rio. Um rio não é uma linha reta traçada com régua. Ele pode nascer nos montes, mas vai descer pelos vales - pode possuir linhas retas, mas pode também meandrar. E, no entanto, continua sendo um só rio.
Este horizonte é o proposto pelo apóstolo quando afirma que há "um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos" (Ef 4. 6). Ele é sobre todos, mas age por meio de todos e habita em todos.
Neste sentido, a unidade é construída pelo Pai, a partir da nossa pluralidade. Isso fica claro quando Pedro nos lembra que a diversidade humana é contemplada por uma graça que não é uniforme, mas multiforme. Ele nos exorta: "Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus" (1Pe 4:10).
Portanto, a unidade que é construída com a anulação das diversidades é hipócrita e tem pouca duração. Paulo explica isso de forma magistral em 1 Coríntios 12. Ele diz: "Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito" (1Co 12.13).
Em seguida, ele argumenta: "Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos. Se disser o pé: Porque não sou mão, não sou do corpo; nem por isso deixa de ser do corpo" (1Co 12.14-15). E continua: "Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde, o olfato? Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve. Se todos, porém, fossem um só membro, onde estaria o corpo?" (1Co 12.17-19).
Imaginemos uma situação fictícia, onde uma comunidade só planta arroz. Se todos plantam só arroz, na hora da colheita só haverá arroz. Não haverá feijão, não haverá milho, não haverá legumes. É uma comunidade pobre, embora uniforme. Uma comunidade rica é aquela que planta de tudo, porque cada um traz sua semente, seu dom, sua cultura.
Conclusão:
Portanto, como pensar em unidade onde há tanta diversidade? Entendendo que Deus nos fez plurais como comunidade, mas unos como corpo. E compreendendo que Ele usa justamente essa diversidade para produzir uma unidade verdadeira. A unidade que Deus quer não é a uniformidade de um quartel, onde todos se vestem igual e pensam igual. É a unidade de um corpo, onde o olho é diferente do ouvido, mas ambos precisam um do outro para que o corpo veja e ouça.
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