POR QUE CRISTO É O FUNDAMENTO QUE MANTÉM TODOS OS SOLAS DA REFORMA PROTESTANTE?
Texto: I Coríntios 3.11
¹¹ Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo.
Introdução:
O texto paulino deixa claro que não existe outro fundamento para a fé além de Jesus Cristo, que atua como o eixo orientador e o filtro interpretativo de toda a Escritura. Sendo Cristo o fundamento, ele é o primeiro Sola da Reforma Protestante. Os outros quatro Solas (Só a fé, só a graça, só a Escritura, só a glória de Deus) podem ser plenamente compreendidos somente a partir desse alicerce cristocêntrico.
Sabemos que o movimento teve, no campo eclesiástico, a intenção de romper com o governo da Igreja Católica Romana. Já no campo teológico/doutrinário, ele questionou dogmas como as indulgências e a infalibilidade papal. Enquanto no campo político, foi oferecido aos principados europeus a oportunidade de se libertarem dos impostos papais. Entretanto, nossa reflexão aqui deixará esse panorama histórico em segundo plano para se deter estritamente aos aspectos bíblicos dessa centralidade de Cristo.
Investigaremos, portanto, os motivos pelos quais Cristo é o fundamento supremo que sustenta e valida todos os demais pilares da nossa fé.
I. Porque, como Filho eterno de Deus, ele é a Palavra de Deus (o verbo vivo) – Ap. 19. 13
O primeiro motivo reside no fato de que Jesus Cristo, como Filho eterno de Deus, é a própria Palavra divina em sua expressão viva. Em Apocalipse 19.13, lemos: “E estava vestido de uma veste tingida em sangue; e o nome pelo qual se chama é A Palavra de Deus.”
O Verbo que sempre existiu humanizou-se e materializou-se na história humana, conforme João 1.1 e 1.14 nos revelam: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. [...] E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” Cristo, portanto, não é apenas um mensageiro, mas a própria mensagem encarnada.
Assim, como Palavra de Deus, o Filho é o agente da criação e o sustentador de tudo o que existe, um fato corroborado por Hebreus 1.1-3:
Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas.
Mais do que criar, Cristo é a Palavra que organiza e estrutura o universo e todas as suas criaturas. Esse arranjo cósmico é evidenciado em Hebreus 11.3: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem.”
O termo grego utilizado neste versículo para "formado" é katartizo, que denota o ato de ajustar, preparar, ordenar e estruturar perfeitamente todas as coisas. Se as Escrituras (Sola Scriptura) possuem autoridade, é porque elas testemunham Daquele que organizou o cosmos e se revelou na carne.
II. Porque a fé e a graça são viabilizadas por Cristo – Ele é o alvo da fé e a oferta da graça de Deus
Em segundo lugar, Cristo sustenta os demais pilares porque a fé (Sola Fide) e a graça (Sola Gratia) só se tornam viáveis por meio dEle; Ele é o alvo da nossa fé e a oferta concreta da graça de Deus.
Por isto, a fé bíblica é, fundamentalmente, de natureza pessoal: nós cremos em uma pessoa antes de crermos em uma afirmação doutrinária. A Palavra escrita funciona como o meio que gera o conhecimento, mas Cristo é o fim e o objetivo da nossa fé, como assevera João 3.36: “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus.”
Paralelamente, Cristo é a própria graça divina estendida e personificada aos homens. Só compreendemos a plenitude do favor imerecido de Deus porque olhamos para Jesus, através de quem somos justificados, como aponta Romanos 3.24: “sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.”
Diferentemente do contexto da Lei Mosaica, que funcionou como uma antessala da graça, temos em Jesus Cristo, a graça materializada e historicamente disponível, conforme atesta João 1.17: “Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.”
III. Porque Jesus é a glória de Deus – Ele é a imagem gloriosa do pai.
Por fim, Cristo é o fundamento supremo porque Ele é a própria glória de Deus (Soli Deo Gloria), manifestando de forma visível e perfeita a imagem gloriosa do Pai. Se a glória divina pode ser compreendida como a manifestação de Sua presença, Jesus personifica essa presença santa entre os homens.
Consequentemente, o Pai só pode ser verdadeiramente conhecido, contemplado e adorado por intermédio do Filho. Quando os discípulos buscaram uma revelação visível de Deus, Jesus respondeu em João 14.9: “Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” Assim, quem contempla a Cristo contempla a glória do Pai, pois o Filho carrega em si a substância e o reflexo exato da divindade.
Retornando ao texto de Hebreus 1.3, o autor sagrado afirma que o Filho é “o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa”. Logo, toda a glória que pertence a Deus Pai está depositada e resplandece na face de Cristo Jesus, o Seu Filho eterno.
Conclusão
Considerando que, no ano de 2026, celebramos 509 anos da Reforma Protestante, vale a pena revisitar seus Solas e reafirmarmos nossa convicção no fundamento primeiro da nossa fé, Jesus Cristo. Não obstante, a relevância dos processos históricos e sociológicos trazidos pela Reforma Protestante, nos atemos especialmente no legado deixado para nossa fé em Jesus Cristo. Por fim, Ao celebrarmos o legado da Reforma Protestante, compreendemos que o seu verdadeiro valor não reside em homens, em revoluções geopolíticas ou em meras mudanças institucionais, mas na transformação do caráter do ser humano que conhece a pessoa de Cristo Jesus.
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